Texto do Professor Gênesis Torres, Coordenador do Fórum Cultural da Baixada Fluminense, lido pelo próprio na Cerimônia de Entrega do Prêmio Baixada 2008 - Rotary Club de Magé.

Por que falar da Baixada Fluminense?
Falar da Baixada Fluminense é falar da vida, da natureza e da biodiversidade com todos os seus encantos de matizes multicores. A terra era de muitas águas, entre encostas e vales, nasciam infinitos igarapés que juntando-se formaram ricos alagados e grandes banhados, de onde nasciam rios que se juntavam a outros em imensas bacias, fazendo multiplicar a vida em toda a sua dimensão. Um verde manto cobria toda esta terra. Os bichos do ar e da terra encontraram uma casa repleta de encantos e uma mesa farta de alimentos todo o ano.
Falar da Baixada Fluminense é falar de sua terra, com seus morros arredondados, ricos em argila, com uma presença de rocha sedimentar orgânica, o que facilitou ao colonizador desenvolver uma agricultura substanciosa. Destas terras saíram o açúcar, o arroz, o feijão, a farinha, o milho, a lenha para consumo industrial e doméstico, frutas e muitos outros produtos para o consumo da cidade do Rio de Janeiro e um excedente exportável. Desta terra e ao longo dos anos produziu-se olarias de onde saíram tijolos e telhas, para a construção da capital do Império.
Falar da Baixada Fluminense é falar de seus caminhos, por onde passaram letrados senhores e homens de raiz. Passaram as tropas e tropeiros, trazendo o charque, ouro e o café do interior. Caminhos que conduziam homens para a defesa da terra, contra os franceses em 1565 e 1711. Que trouxe Tiradentes e seus correligionários, para o julgamento no Rio de Janeiro. Que levou D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II ao Córrego Seco (atual Petrópolis). Caminhos de muitos viajantes que empolgados escreveram infinitas páginas da engalanada terra. Caminhos outrora líquidos, depois de terra firme e que pelas mãos de Irineu Evangelista de Souza viraram estradas de ferro. E que o progresso do século XX trouxeram as rodovias Presidente Dutra e Washington Luiz, a Rio Petrópolis e a Automóvel Clube e muitas outras.
Falar da Baixada Fluminense é falar de sua gente, inicialmente indígena e dizimada ainda no alvorecer da ocupação, no século XVI. Chegam os colonizadores portugueses aquinhoados por sesmarias A seguir vieram os cristãos novos (judeus cristianizados) perseguidos pelos Tribunais da Inquisição. Para o trabalho na terra chegaram os escravos negros. Surgem os primeiros mestiços, homens da terra. Com a abertura dos Portos em 1808 chegam os viajantes de todas as nacionalidades. Primeiramente os europeus ingleses, franceses e alemães. Mais tarde, chegam os asiáticos chineses e japoneses e do meio oriente os árabes, os libaneses e os turcos.. Ao lado desta colcha de retalhos euro-asiática estava a presença de praticamente todos os estados brasileiros. O mundo estava aqui.
Falar da Baixada Fluminense é falar de sua fé, explicitada ainda no setecentos com as Igrejas de Nossa Senhora das Neves, Pilar, São João Batista de Trairaponga, Piedade de Iguassú e Magepemirim e dezenas de outras entre o dezoito e o dezenove. A fé que remove montanhas, aqui removeu a natureza com seus terrenos insalubres, suas várzeas alagadas com seus pântanos e brejos. O rude homem colonizador ao lado de uma classe servil e escrava, construiu nestes trópicos entre as montanhas e o mar a cultura da diversidade.
Falar da Baixada Fluminense é falar de seu folclore, expressado por algumas dezenas culturas, migradas pelos povos que aqui aportaram, da França ainda do século XVI e XVIII nos deixaram as danças juninas; das terras portuguesas as festas do divino e do entrudo que nos deu o carnaval; das terras da África os ritmos e umbigadas produzindo a capoeira e o samba. A culinária baixadense é de uma variedade inigualável, que se verifica o quanto multiplicaram-se nestas terras as casas de gastronomia.
Falar da Baixada Fluminense é falar de seu progresso, que marcaram no passado com a cana de açúcar e outros de subsistência, e no século passado com a laranja. Assim, realiza-se em cada município, um profícuo trabalho, gerando um setor de serviço de grande complexidade terciária. O setor industrial se fez presente inicialmente com a “fenêmê”, uma arrojada fábrica de caminhões transportando mercadorias num tempo de rodovias de chão batido por este Brasil a fora. A seguir veio a Refinaria de Petróleo e todo o parque industrial químico. As indústrias de laminação, de móveis, de vestuário, de alimentos, de bebidas, e muitas outras indústrias...
Falar da Baixada Fluminense é falar de sua esperança, que se renova a cada dia em milhares de pessoas, que acreditando na vida, removeram a terra e produziram riquezas, transportados por infinitos caminhos líquidos ou de terra firme, levando gente que, com fé construíram esta terra e da cultura trazida de suas terras produziram um rico folclore. Isto deu a todos o gosto pelo trabalho que gerou o progresso e multiplicou em cada rua, em cada bairro e em cada cidade o real sentido da vida.
Gênesis Torres, é professor e pesquisador de História,
Presidente do Instituto de Pesquisas e Análises Históricas
e de Ciências Sociais da Baixada Fluminense, Coordenador do Fórum
Cultural da Baixada e Subsecretário de Cultura de São
João de Meriti.
