Nascia no seu entorno dezenas de engenhos de açúcar,
construções de igrejas e pequenas povoações,
muitas delas origem dos municípios de hoje.
As
bacias dos rios Meriti, Sarapui, Iguaçu, Inhomirim, Estrela e
Magé
foram as primeiras a serem ocupadas. Em suas margens nascem os portos de
embarque. Bastante movimentados com a presença de tropeiros e de
embarcações que subiam e desciam levando mercadorias da Europa
para os engenhos e destes com seus produtos para a cidade do Rio de Janeiro,
alem dos excedentes para o Reino. Os próprios portos eram transformados
em importantes celeiros.
Os
Engenhos de Cristóvão Barros em Magé no ano de 1567
e o de Salvador Correia de Sá na ilha do Governador, foram os
primeiros a fumegar em território fluminense. Em 1584, menciona
Anchieta “muitas fazendas pela baía dentro” e no ano
seguinte diz ele ser a
“terra rica, abastada de dados e farinhas e outros mantimentos, tem
três engenhos...”
No
século XVII o número de engenhos rapidamente crescia e
o açúcar iria absorver quase toda a iniciativa dos fazendeiros
do recôncavo da Guanabara. Cerca de 120 engenhos são levantados
em torno da baía, e é o açúcar do recôncavo
que vai afinal, como nos demais portos primitivos, erguer a economia
da noviça cidade Rio de Janeiro. É também o açúcar
o grande impulsionador do índice demográfico com a crescente
entrada de africanos para as lavouras.
A
paisagem natural vai deste modo modificando-se, fazendo aparecer os primeiros
clarões nas florestas, não longe da entrada da baía
começa a projetar toda uma população agrícola
sobre os enflorestados morros do recôncavo e os intermináveis
pântanos e alagadiços marginais.
O
marco inicial da colonização no Vale do Rio Iguaçu
foi a fazenda São Bento. Esta fazenda teve sua origem nas terras
doadas pela Marquesa Ferreira ao mosteiro de São Bento em 1596,
era viúva de Cristóvão Monteiro, primeiro proprietário
das sesmarias ofertadas por Estácio de Sá no ano de 1565
em terras hoje pertencentes atualmente à cidade de Duque de Caxias.
Nesse local, os monges Beneditinos fizeram erguer inicialmente uma capela
dedicada a Nossa Senhora das Candeias. No século XVIII, as terras
passaram para as mãos da irmandade de N. Sra. do Rosário
dos Homens Pretos. Sua atividade econômica baseava-se na produção
de farinha de mandioca, na cana de açúcar e na fabricação
de tijolos.
Nas margens do Rio Pilar, afluente do Iguassú, vamos encontrar a
freguesia de Nossa Senhora do Pilar uma das mais antigas da Baixada. A
primeira doação de sesmaria na região foi para Gaspar
Sardinha, em 1571. Seu descendente Domingos Nunes Sardinha, abastado agricultor,
construiu uma ermida em 1612, dando origem à Igreja de N.Sª.
do Pilar.
Próximo
as suas cabeceiras, localizada à margem direita do rio Iguaçu
numa planície circundada de pequenos morros, a Igreja de Nossa
Senhora da Piedade de Iguassú teve sua origem na capela que o
alferes José
Dias de Araújo, autorizou construir em sua terra, no ano de 1699.
É
improvável, no entanto de fácil compreensão, que os
primeiros núcleos de povoação não surgiram
em torno de uma atividade puramente econômica, o colonizador era
um homem extremamente devoto, ou quando não, demonstrava a sua religiosidade
como forma de justificar o aquinhoamento de longas extensões de
terras em nome da fé católica.
A
presença das capelas e igrejas numa determinada região,
demonstrava a importância que aquele território representava
perante o poder secular e o poder eclesiástico. Essa célula
inicialmente embrionária daria o surgimento de uma aldeia, uma
freguesia, uma vila e mais tarde uma cidade.
Meriti
assim teve as seguintes capelas descritas por Pizarro: a de São
João Baptista, fundada pelos moradores de Trairaponga em 1645,
em local desconhecido. Esta Capela funcionou como Matriz até o
ano de 1660.
Com
o crescimento de uma vila próximo ao Rio Meriti (atualmente centro
da Pavuna e da cidade de Meriti), mandou-se construir em 1660 uma outra
de pedra e cal (na Pavuna), transferindo inclusive a pia batismal, o
que demonstraria a importância que este sítio assumia junto
ao porto da Pavuna, que naquele momento já contava com uma grande
quantidade portos, que escoavam a produção agrícola
como o milho, a mandioca, o feijão, o arroz, legumes, o açúcar
e a aguardente e ao mesmo tempo recebia os produtos importados, já
que a localidade da Pavuna e Meriti, além de serem portos fluviais
era também o melhor ponto onde se entrava na Baixada pelos caminhos
de terra firme.
Assim,
funcionava na localidade da Pavuna e do Meriti um verdadeiro entreposto
comercial com toda a infra-estrutura com armazéns, trapiches,
vendas e hospedarias. Por aqui passaram as pedras, azulejos, santos,
móveis, pratarias, e outras quinquilharias que serviriam para
ornamentar igrejas e fazendas que se construíram nas freguesias
de Meriti e Jacutinga.
O ciclo do ouro ocorrido no interior do Brasil, traria importância
para a ampliação dos caminhos da baixada. Após o abandono
do Caminho dos Guaianazes que partia de Parati, abriu-se um novo caminho
através da Baixada com ligação direta entre o Rio
de Janeiro e as Minas, era o Caminho Novo de Garcia Paes em 1704 – passando
por Xerém, Pilar e descendo o Rio Iguassú até o Rio
de Janeiro.
Em
1724 abriu-se outro por Bernardo Soares de Proença, descendo a
Serra de Estrela, atingia o Rio Inhomirim e o Estrela, onde existia o
porto e indo em direção do Rio de Janeiro. Formando ai
um importante Arraial que se transformou em Vila em 20 de Julho de 1846.
A Vila da Estrela foi próspera, por ela passou a maior parte do
ouro produzido na região das gerais, era o ponto final do caminho
que durante mais de século recebia todos que se dirigiam ao interior.
Pelas águas do Rio Iguassú desceram a produção
de café do vale do Rio Paraíba do Sul, atravessando a Baía
em direção a cidade do Rio de Janeiro. Seu porto com uma
dezena de armazéns em sua volta, atraiu para a localidade um grande
contingente populacional, que se dedicaram nas mais diversas atividades
de serviços, o arraial cresceu e virou Vila em 15 de Janeiro de
1833. Era a mais próspera das Vilas Fluminenses, possuidora de todos
os Órgãos Públicos e setores de serviços.
O
café
foi plantado também nas encostas da serra do mar em Iguassú
no século XIX. O seu comércio gerou tanta riqueza que promoveu
a abertura em 1822 pela Real Junta do Comércio uma nova estrada
a do "Comércio", ligando-se também a outra posteriormente
construída a estrada da polícia que passava por Belém,
dirigindo- se ao Rio Preto, este caminho passou a denominar-se "Caminho
do Comércio”, porém, só a partir de 1837 começaram
os estudos para o seu calçamento, cujo trabalho ficou sob responsabilidade
do coronel de engenheiros, Conrado Jacob de Niemeyer.
Na
primeira metade do século XIX o mundo conhecia a segunda fase
da revolução industrial - a dos transportes. A grande novidade
era o barco a vapor e a locomotiva sobre trilhos. No Brasil, Irineu Evangelista
de Souza, o Barão de Mauá, lançava com o apoio de
capitais privados, a primeira ferrovia ligando o Porto Mauá – depois
Estação da Guia de Pacopaíba à Fragoso e
Inhomirim no pé da serra da Estrela, num percurso de 15,5 km.
Esta
inauguração lançou as bases de uma grande transformação
que se operaria ao longo da 2ª metade do século XIX, mudando
completamente a configuração da geografia urbana da Baixada.
A ferrovia num movimento retilíneo rasgou a baixada, diferentemente
do caminho seguido pelos rios em meandros. Para a construção
das ferrovias aterraram-se pântanos e brejos e desmatou florestas,
de forma que a natureza sofreu grandes agressões.
No entanto, as grandes transformações ocorreram no processo
de ocupação humana. A primeira linha férrea construída
foi em direção à região produtora de café.
A Estrada de Ferro Pedro II (hoje Central do Brasil), chegou às
cidades das encostas da serra do Gericinó e sul da serra do Mar
em 1858 juntamente com Maxambomba (atual Nova Iguaçu), Queimados
e Japeri.
Em
1876 com o objetivo de captar água para a cidade do Rio de Janeiro
foi construída a estrada de Ferro Rio D’Ouro, à medida
que avançava ia transportando os tubos de ferro e demais materiais
completando as obras de construção das redes de abastecimento
d’água. No entanto, foi somente em 1883 ainda em caráter
provisório que começaram a circular os primeiros trens
de passageiros que partiam do Caju em direção à represa
Rio D’Ouro. Mais tarde esta ferrovia foi dividida em três
sub-ramais: Ramal de São Pedro, hoje Jaceruba; ramal de Tinguá,
que se iniciava em Cava (Estação José Bulhões);
e o ramal de Xerém, partindo de Belford Roxo.
Em
23 de abril de 1886 é inaugurada a Estrada de Ferro Leopoldina
Railway, concessionária da The Rio de Janeiro Northern Railway
Company –
era a primeira concessão para uma estrada de Ferro que, partindo
diretamente da cidade do Rio de Janeiro, alcançava a região
serrana de Petrópolis.
A 28 de fevereiro de 1884 iniciou-se o trabalho para assentamento dos trilhos,
o que levaria dois anos, até sua chegada em Merity (atual Duque
de Caxias),
Junto
a estas ferrovias seguiram outras de menor importância, mas que
faziam ligações como ramais auxiliares e complementares às
linhas principais. Elas surgiram em um momento que a baixada não
possuía estradas, apenas alguns caminhos carroçáveis
que em tempos de chuvas eram intransitáveis. O meio de transporte
comum era no lombo dos animais ou ainda através dos rios. A locomotiva
passou a ser a melhor opção não só de passageiros
mas também para o transporte de mercadorias.
A população
cansada dos naturais isolamentos, das doenças ribeirinhas começa
a mudar-se para as margens das ferrovias, em principal nas paradas dos
trens
– onde se tinha água e lenha que serviam como fonte de energia
para a locomotiva. Nestas paradas surgiam pequenas atividades de comércio,
cortadores de lenha, carvoeiros e homens de serviços em geral. O
crescimento rápido desta população fez destas paradas
importantes estações que serão embriões dos
futuros distritos de Nova Iguaçu, como Nilópolis, Queimados,
Japeri, Merity, Belford Roxo, Pilar, Xerém e Estrela.
O
assoreamento dos rios causado pelo desmatamento, as febres palustres
e o fim da escravidão apressaram a decadência econômica
da Baixada, o que levou a população em busca do Rio de
Janeiro ou outras áreas produtoras para sobrevivência.
A
expansão urbana neste século deu-se com a expansão
das ferrovias. A venda de terras, outrora fazendas, retalhadas em lotes
e vendidas a preços baixos para a moradia ou transformadas em
sítios para o plantio de laranjais, estimulados pelos governos
bem como a valorização no mercado mundial. Pelos diversos
distritos de Nova Iguaçu cultivaram-se laranjais que ocuparam
os morros e as colinas, fazendo a riqueza dos chamados capitalistas da
laranja.
As
oscilações do mercado mundial com as guerras, as técnicas
impróprias para o cultivo e a valorização de terras
para fins urbanos após o saneamento, formaram a decadência
da citricultura nesta região, dando lugar às “cidades
dormitórios” de uma população laboriosa que
se deslocavam para o Rio de Janeiro, diariamente, em busca do mercado
de trabalho.
O
processo desenvolvimentista inaugurado com a revolução
de 1930, a capitalização do campo, a seca no nordeste,
a saída em massa do campo e a crise no sistema de parceria levaram
ao êxodo rural. O inchaço populacional nos grandes centros
urbanos e a exploração imobiliária pelo aumento
constante do metro quadrado do solo na capital acaba empurrando grandes
contingentes populacionais, para estas históricas terras.
As
fazendas fracionadas em sítios e chácaras com seus imensos
laranjais e horti-fruti-granjeiros, transformaram-se em áreas
de loteamentos, de grilagem e ocupações irregulares. Freguesias
viram Distritos e estes em municípios. Em 1924 São Matheus
vira 7º Distrito com o nome de Nilópolis, em 1931 Estação
de Merity, com seu povoado em volta, vira o 8º Distrito com o nome
de Caxias, todos desmembrados de Meriti, que pertencia a Nova Iguaçu.
Após
o regime de exceção (Ditadura Vargas), na esteira do populismo,
o 8º Distrito emancipa-se ganhando status de Município, levando
consigo São João de Meriti, que é transformado em
seu 2º Distrito. São João de Meriti em 1947, emancipa-se
de Duque de Caxias e, na mesma lei, Nilópolis de Nova Iguaçu.
Envolvida
com enormes conflitos ambientais, em razão de um crescimento urbano
pouco planejado, onde temos bairros residenciais convivendo com industrias
de grande potencial poluidor, com despejos “in natura” em águas
que deságuam na Baia da Guanabara, agravada por sua posição
geográfica entre o mar e a serra, dificultando ainda mais a dispersão
de poluentes como o monóxido de carbono gerado de veículos
automotores.
A
degradação dos manguezais, o abandono dos nossos sítios
históricos e arqueológicos, a criação de áreas
de preservação ambiental, o reflorestamento das encostas
e morros, os investimentos em equipamentos culturais são os grandes
desafios que encontramos e que solicita de nós cada vez mais empenho.
É
templo de salvá-las: rios, matas, cachoeiras, sítios e prédios
históricos devem ser priorizados não só sobre o ponto
de vista cultural, mas como fator vital de sobrevivência, na preservação
de recursos naturais como a água.
Torres,
Gênesis, é professor e pesquisador de História,
Presidente do Instituto de Pesquisas e Análises Históricas
e de Ciências Sociais da Baixada Fluminense, Coordenador do Fórum
Cultural da Baixada e Subsecretário de Cultura de São
João de Meriti.
