Reuniram-se
no dia 09 de dezembro de 2000, no horário das 09 às 17h,
no Campus da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense
(UERJ) no Bairro Vila São Luís em Duque de Caxias, sob
a Coordenação do PINBA (Programa Integrado de Pesquisas
e Cooperação Técnica na Baixada Fluminense) e do
IPAHB (Instituto de Pesquisas e Análises Históricas e de
Ciências Sociais da Baixada Fluminense), com a presença
de 78 (setenta e oito) agentes culturais, representando os mais diversos
setores do universo cultural da Baixada Fluminense, tais como: Teatro,
Música, Literatura, Folclore, Artesanato, Imprensa, Pesquisa Social,
Ecologia, Artes Plásticas, etc, em torno da chamada inicial "Quem é quem
no cenário cultural da Baixada Fluminense".
Primeiramente, é necessário definir que esta região
hoje é composta
dos municípios de Magé, Guapimirim, Duque de Caxias, São
João de Meriti, Nilópolis, Belford Roxo, Mesquita, Nova Iguaçu,
Queimados, Japeri e Paracambi, que, somados, possuem uma população
em torno de quatro milhões de habitantes, em um espaço aproximado
de 4 mil Km².
Sua história liga-se à da Cidade do Rio de Janeiro, e esta cresceu
e se tornou capital política, econômica, social, cultural e turística,
graças à existência de uma grande baía e, no seu entorno,
de uma grande malha hidroviária importante no seu passado. A seguir veio
a ferrovia e hoje é cortada por duas grandes rodovias nacionais: a Presidente
Dutra e a Washington Luiz. Mais recentemente foram completadas nos seus acessos
pela Linha Vermelha e pela Via Light. Está em curso o projeto da rodovia
que ligará pela BR 109 o Porto de Sepetiba, em Itaguaí, a Petrópolis,
a Magé, a Teresópolis e ao restante do país.
O que se visualiza para a Baixada no decorrer do próximo século,
além do desenvolvimento econômico, é sem dúvida a
melhoria da qualidade de vida, alcançada como fruto das mudanças
estruturais em nível sócio-econômico. Inevitavelmente estas
melhorias já estão trazendo aumento das atividades de lazer, representadas,
ainda, nas suas formas massificadas da vida urbana, pelas casas de espetáculos
acopladas às casas de gastronomia. Observa-se total falta de infra-estrutura
das atividades culturais para oferecer lazer e entretenimento de qualidade.
Com o objetivo de refletir sobre a cultura, várias tentativas foram feitas
no decorrer desta década que ora termina. Por iniciativa do Estado foi
motivada a criação do Fórum Estadual de Cultura, em nível
do Estado e em nível Regional. Reuniram-se algumas vezes no início
da década, no entanto, seus resultados foram infrutíferos. O último
encontro do Estado com a região foi em abril de 1999, em Duque de Caxias.
Naquele momento foi tirado um documento contemplando os anseios dos vários
segmentos reunidos no SESI. Deste encontro nasceu a Carta da Baixada, "um
documento-síntese" que reafirmou a convicção dos participantes
no potencial dos artistas, pesquisadores, historiadores e promotores culturais
locais, ao mesmo tempo que foram destacadas diversas diretrizes para nortear
a formulação de uma política cultural para a região,
entre elas:
· A criação de formas institucionais de interlocução
entre o poder público e os agentes culturais locais;
· A promoção de ações que visem à qualificação
profissional desses agentes;
· O resgate do patrimônio histórico e cultural dos municípios
que compõem a região.
Em Ato do Secretário de Estado de Cultura, estabelecido pela Resolução
nº 010 de 10 de fevereiro de 2000, foram ratificadas as reivindicações
daquele encontro com nomeação da Comissão Intermunicipal
da Baixada, tendo sido os nomes sido publicados em diário oficial no dia
11 de agosto de 2000.
Esta Comissão com prazo de um ano para proceder juntamente com os Órgãos
Técnicos ao levantamento do Patrimônio Histórico-cultural,
até o presente momento ainda não se reuniu por falta de iniciativa
da própria Secretaria de Cultura. Tememos que seja mais um ato resolutivo,
que não passe das intenções.
Neste sentido, os diversos segmentos culturais, apreensivos quanto aos destinos
da cultura na Baixada Fluminense, resolvem reunir-se neste encontro para refletir
democraticamente sobre questões pertinentes, buscar saídas e encaminhar
sugestões. Nos grupos foram definidas algumas questões pontuais
que vão abaixo elencadas:
Considerando:
1. Que o Patrimônio Cultural de nosso povo não tem recebido a devida
atenção das autoridades públicas, ferindo princípios
constitucionais;
2. Que a produção cultural ora tem sido vista como atividade de
lazer, ora como fonte de renda das camadas carentes da população,
sem projetos que façam crescer a consciência crítica sobre
a cultura como fator de desenvolvimento de nosso povo;
3. A falta de espaços culturais públicos adequados ao desenvolvimento
de atividades cênicas, circenses, conferências e grandes eventos;
4. Que a cultura tem sido vista pelos segmentos dominantes e elitizados da sociedade
como privilégio dos mais ricos;
5. Que a cultura é um instrumento vivo da realização do
cidadão como membro de uma comunidade;
6. Que o folclore (dança, folguedos e músicas) reúne manifestações
profundas dos sentimentos dos diversos povos que ocuparam esta região
e que por falta de apoio das diversas Secretarias de Cultura, encontra-se em
processo de extinção;
7. Que o Patrimônio Histórico ao longo das últimas décadas
deste século foi destruído sem que houvesse interesse em preservá-lo;
8. Que as fontes da história, entre elas, a escrita, a fotográfica,
a arqueológica, a etnográfica e a antropológica, vêm
sofrendo um processo de destruição, sem que a elas tenhamos acesso,
seja por falta de pesquisa, seja por falta de divulgação, quer
do Poder Público ou da iniciativa privada, já que é do Estado
o dever constitucional de garantir o seu acesso e a sua preservação;
9. Que as políticas públicas em nível Federal, Estadual
e Municipal, pouco têm feito no sentido de garantir a preservação
e o acesso ao pouco que restou;
10. Que não se justificam tais entendimentos, haja vista ser a história
uma ciência importante na formação de conteúdos para
o adequado planejamento e desenvolvimento de projetos, numa Baixada que desponta
como região promissora do Estado com conseqüência do crescimento
do espaço urbano e econômico e, por que não dizer, de decisão
política;
11. Que o grande patrimônio natural e ecológico como as serras (Mar, Órgãos,
Gericinó e Medanha), as florestas nativas, os manguezais, os rios, o solo,
sofreram ao longo da ocupação uma ação predatória
e irresponsável.
Neste sentido propomos:
1. Que o conteúdo da história, da cultura e da geografia da Baixada
seja incluído como conteúdo obrigatório nas Escolas do Ensino
Fundamental, nas 4ª, 5ª e 6ª séries, em todos os municípios
da região. Com este objetivo recomenda-se sejam feita gestões junto
aos conselhos municipais de educação, já em funcionamento,
e junto ao Conselho Estadual de Educação;
2. Implantação, com caráter deliberativo, do Conselho Municipal
de Cultura em cada Município;
3. Desmembrar a Cultura da Educação, dando status de Secretaria,
nos municípios em que ainda não foram desmembradas;
4. Criação do Curso de Produção Cultural, de preferência
em nível superior (extensão, graduação ou pós-graduação);
5. Assento no Conselho Estadual de Cultura de dois membros da Baixada Fluminense,
sendo um institucional e outro da comunidade;
6. Que seja procedido em cada município o levantamento histórico,
cultural e patrimonial, dentro de um processo de tombamento e conservação;
7. Que seja criada em cada município Comissão com o objetivo de
levantamento, tombamento e preservação do Patrimônio Histórico
e Cultural, incentivando a iniciativa privada a participar deste processo, visando
a desenvolver o turismo histórico na região.
8. Em caráter de urgência sejam destinadas verbas para recuperação
dos seguintes Patrimônios Históricos Arquitetônicos, que se
acham em estado precário:
· Torre Sineira da Igreja de Nossa Senhora da Piedade Iguassú,
em Nova Iguaçu;
· Fazenda São Bento, em Duque de Caxias;
· Igreja de Nossa Senhora da Piedade de Inhomirim, em Magé;
· Estação Ferroviária de Guia de Pacopaíba,
em Magé;
· Casa da Grota, em São João de Meriti;
· Fazenda do Brejo, em Belford Roxo;
· Fazenda São Bernardino, em Nova Iguaçu;
· Igreja do Pilar, em Duque de Caxias;
9. Que seja criada na Secretaria de Desenvolvimento da Baixada um Departamento
de Patrimônio Histórico, com vistas ao Centro de Referência
Histórica ou mesmo ao Museu da Baixada, que seja dinâmico, capaz
de produzir todo o referencial de cidadania àqueles que aqui se fixaram
ao longo dos séculos (Portugueses, Espanhóis, Italianos, Alemães,
Judeus, Árabes, Sírio Libaneses, Japoneses, Afros e Indígenas
e outros, além de gente de todas as regiões do Brasil).
10. Que sejam feitas pelas Prefeituras da região campanhas de doações
para formação do acervo histórico, nas suas diversas fontes.
Assim também, campanhas educativas de preservação do Patrimônio
Histórico nas Escolas e na Sociedade.
11. Criação de uma Biblioteca Pública de porte em cada município
da Baixada, de fácil acesso a todos os munícipes;
12. Fortalecimento nos municípios das feiras e dos espaços dedicados
ao artesanato como fonte de produção cultural;
13. Criação no âmbito das Secretarias de Cultura de um Departamento
dedicado ao Folclore Nacional e Regional, com intercâmbio entre os diversos
grupos da Região e dos demais Estados da Federação;
14. Que as Prefeituras dos Municípios e Cidades da Baixada garantam efetivamente
nas dotações orçamentárias um percentual mínimo
de 3% para o desenvolvimento de Projetos Culturais, e que os mesmos sejam definidos
pelas comunidades;
15. Criação do Consórcio Intermunicipal de Cultura, entre
municípios que possuem identidade geográfica e de comunicação,
que facilite os acessos, objetivando a criação de multiespaços
culturais, visando ao desenvolvimento de megaprojetos;
16. Que as Universidades e Faculdades da Baixada motivem os seus alunos dos cursos
de graduação e pós-graduação e nas diferentes áreas
de conhecimento, a pesquisarem sobre a realidade da Baixada;
17. Que o setor público efetive concretamente o seu apoio na produção
literária e científica;
18. Que seja incentivado o setor privado a apoiar as atividades de caráter
cultural;
19. Conscientização do 3º setor (das ONGs) no sentido de desenvolver
projetos independentes do setor público, entendendo-se que a cultura não
pode esperar somente do Poder Público, ou a ele ficar atrelada;
20. Criação, nos municípios, de leis que venham a incentivar
a cultura;
21. Que a data de 30 de Abril de cada ano seja comemorada como o DIA
DA BAIXADA FLUMINENSE.
Justificativa:
Esta data refere-se à inauguração da primeira estrada de
ferro construída no Brasil, que ligava o porto de Mauá - Estação
da Guia de Pacopaíba à região de Fragoso. A estrada de Ferro
tornou-se um marco histórico da ocupação urbana, dando um
novo perfil na ocupação do solo. Foi o fim dos portos fluviais,
da navegação pelos rios e dos caminhos de tropeiros.
Dentro dos considerandos e propostas aqui apresentadas e relacionadas, as entidades,
grupos e pessoas que produzem, divulgam e promovem todas as formas de cultura
na região, que participaram do encontro (conforme livro de presença à disposição
dos interessados), colocam-se ao inteiro dispor das Prefeituras e demais órgãos
Estaduais e Federais, para colaborar na produção, divulgação
e preservação do Patrimônio Histórico e Cultural da
Baixada Fluminense. Acreditamos acima de tudo em nossas potencialidades.
FEBF, Duque de Caxias, 09 de Dezembro de 2000.
Pela Coordenação do Encontro,
Paulo Christiano Mainhard
Coordenador do PINBA
Gênesis Pereira Torres
Presidente do IPAHB